terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os desafios da mediação

Discute-se muito sobre o que é mediação. Intermediar, conduzir, facilitar... Nem sempre o mediador funciona como um facilitador, mas como alguém que torna o caminho de conhecimento mais longo e por vezes até árduo, pois mostra formas de apreensão que demandam maior trabalho, mas que também permitem maior profundidade e, consequentemente, outros modos de ver e se relacionar com o mundo. Isso implica, portanto, mudanças pessoais.

O sentido de mediação aqui empregado nutre-se dos pensamentos dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, em que a multiplicidade e o devir são uma coisa só. Sendo que "uma multiplicidade não se define por seus elementos, nem por um centro de unificação ou de compreensão. Ela se define pelo número de suas dimensões (...)" (Deleuze e Guattari). No contexto educacional, isso concerne à transformação do educador e do educando, devido a um ou outro, ou seja, cada qual atravessa a dimensão do outro e assim apreende também outros modos de se relacionar com as coisas. Desse modo, caracteriza-se o próprio devir como elo entre ambos. Eis o desafio.
A mediação no sentido acima é uma forma de educar que extrapola conteúdos para criar experiências que compreendem reflexões e saberes que se transmutam, instiga os educandos a vislumbrar a multiplicidade dos modos de leitura das coisas do mundo, de maneira que educador e educando façam parte da tecitura de suas experiências reciprocamente.

Mediar em exposições, junto a objetos artísticos ou semióforos (objetos que perderam seu uso e que são ressignificados) objetiva estimular conjuntamente, tanto a cognição quanto os sentidos. Tanto na educação formal quanto na não-formal, cabe destacar a importância dos sentidos do educando como participante na construção do saber, pois suas experiências influem na afetividade com o qual ele se relaciona com algum objeto e, portanto, em sua maior ou menor disponibilidade para determinadas apreensões.

Ao mediar, o educador seleciona palavras e imagens, lembrando que as palavras também produzem imagens mentais que remetem a experiências vividas. Mediar implica saber lidar com as nossas próprias experiências. Saber contar nossas histórias e delas extrair reflexões acerca do mundo e de nós mesmos. E, quando da dificuldade de expor nossas histórias, podemos contá-las por meio de narrativas plásticas ou textuais de outros. Assim, a memória de conhecimentos adquiridos pela razão é ativada junto com a memória do sensível para resgatar experiências e empreender caminhos diversos do usual. As atividades práticas são um dos caminhos possíveis.























DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol 4 (trad. Suely Rolnik). São Paulo: Ed. 34, 1997.

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